“Le Chagrin et la Pitié” ou “The Sorrow and the Pity”, por Paulo Francis

 

 

Paulo Francis nos brindou com vários textos, alguns reunidos no livro “Paulo Francis – Nu e Cru”, editado pela CODECRI.

Em tempo: o nome codecri, inventado pelo cartunista Henfil, seria o acrônimo de “Companhia (ou, segundo outras versões, comitê ou comando) de Defesa do Crioléu”.

Na dedicatória de “Nu e Cru Francis homenagearia Jaguar: “Ao Jaguar, sem o qual O PASQUIM não existiria, mas que não é responsável pela minha raiva e melancolia.”

 

 

Antes de tudo, gostaria de pedir aos editores que deixassem o título no original, em francês. Afinal, se alguém não souber o que significa é só ir ao dicionário. E é uma novidade um pouco de francês num jornal já parcialmente escrito em inglês. Mas confesso logo que gosto do título e não sei traduzi-lo. A tradução inglesa é The Sorrow and the Pity. Também não gosto. Acho que Chagrin é mais sutil e menos profundo que Sorrow e acho que Pity é mais forte que Pitié. Não esclarecido isso, acrescento que esse documentário de 4,20 h., com 10 de intervalo, onde comi dois sanduíches de presunto e tomei duas cocas (colas), é um grande filme e um filme muito falhado. Não o percam, se puderem vê-lo. Exijam. Ao menos a Cinemateca do MAM pode importá-lo. Garanto que Marcel Ophuls, o autor, que já entrou para ficar na modesta história do cinema, quer mesmo é público, antes de dinheiro (mas isso não é razão para roubá-lo).

E gostaria de pedir a certos leitores meus que parassem com essa frescura que eu devo ser mais “político” e falar menos de cinema e outras coisas. Sou um jornalista de assuntos gerais, ao menos dos que julgo entende um pouco. Do particular procuro extrair uma idéia geral, e vice versa. Profundo. Se consigo ou não, é outro papo. Mas não sou, com certeza, crítico de cinema.
Não há muito o que criticar em cinema. É uma coisa menor, mas, como já dizia meu amigo Merleau-Ponty (vocês leram o ensaio dele que publiquei no Quarto Caderno do Correio da Manhã explicando por que Marx é um clássico? É um dos três ou quatro ensaios que qualquer pessoa civilizada tem a obrigação de ler).

Mas o que dizia mesmo meu amigo Merleau-Ponty? Que cinema é ótimo para a gente ver o comportamento humano. Sem dúvida. Isso não me basta. Qualquer romance de segunda me diz mais que o melhor filme de Bergman. Mas (cinema) é uma sensação toda especial, quando é bom, como um gole de cerveja geladíssima num dia de muito calor (ninguém, espero, compara cerveja a uísque, ou a certos vinhos). É um troço sui-generis, necessário hoje, porque a maioria das pessoas só vê mesmo do nosso complicadérrimo mundo um cartão postal. E no cinema, ao menos, o cartão postal é animado. What’s up, Doc (percam o filme com este nome. Exijam a volta de Bugs Bunny, o legítimo). Uso o cinema como base. Até Napoleão precisava de almofadas no cavalo. Piles, you know. 4,20, sim, senhor, Paulo Francis, na tua idade. E é documentário de televisão. Quer dizer, a base é middle shot e close-up, que pega bem em televisão, porque em televisão long shot não funciona. Em cinema, técnica de televisão chateia bastante. E um montador competente (o de The Godfather, por exemplo, é um gênio de concisão expressiva) cortaria tranqüilamente 2 das 4,20h, e teríamos um troço corrido, quente etc. Prefiro o original, chato como é, em partes. Uma coisa não tem nada que ver com a outra, em termos estéticos, mas quando reli recentemente aqui Os Irmãos Karamazov, tinha resolvido pular aquelas cenas insuportavelmente chatas de Alyosha. Comecei. Não deu pé. Voltei atrás. A chatice é parte da grardeza. A chatice é parte da vida, é talvez a maior parte, e isso tem de se refletir nas grandes obras de arte. Bem, aqui não bem de arte. É um grande momento sociológico do cinema.

O filme de Marcel Ophuls é sobre a Ocupação nazista da França. No mínimo, 80% dos franceses apoiaram, ou se lixaram. Pétain era popularíssimo. Laval e ele executaram tudo que Hitler queria (Pétain recusou compromissos militares e foi ambíguo quanto à Armada Francesa, afinal destruída pelos ingleses, mas falo da política interna). Foi o único governo, o único povo a colaborar com as forças de ocupação. Inclusive, as leis anti-semitas francesas, algumas, eram mais violentas que as alemãs. A França estava cheia de campos de concentração. Deu tudo aos alemães. De operários a crianças judaicas, o que a Gestapo não queria (o Dr. Claude Levy, da Resistência, tem um depoimento a respeito, no filme, definitivo). Quatro mil e tantas crianças judaicas, fazendo nas calças, na prisão (que funcionou brilhantemente, nota Levy, porque a polícia civil francesa colaborou exemplarmente), enquanto Eichmann (exatamente) não sabia o que fazer delas. Lavai resolveu o problema. Mandou-as, ele próprio, aos campos de extermínio.

Compreendo a paranóia atual dos judeus sobre Israel, que, às vezes, se volta contra mim. Mas assim mesmo, cuidado com a paranóia. Eu já sabia de tudo isso e de algumas coisas que Ophuls não conta (ver O QUE FICOU DE FORA), mas certamente é novidade para a maioria dos não especialistas. Só que o fato de eu já saber não me tira um mínimo da revelação do filme. Porque são as pessoas que viveram aquilo que aparecem, inclusive o genro de Lavai, defendendo-o até hoje. A gente vê: cinema. O filme mostra cenas da época e entrevistas com sobreviventes. Justapõe os dois períodos de maneira basicamente expositória, mas F-se objetividade, felizmente. Ophuls edita os fatos, claro, e muito equilibradamente, dando-nos várias surpresas, como vocês verão, se tiverem a paciência de ler este catatal.

Notas: “80% apoiaram ou se lixaram”. Mais se lixaram. O Dr. Pangloss que só via até a ponta do nariz é uma imagem otimista de Voltaire. A maioria das pessoas tem um conhecimento da realidade inferior a de um gato. Só em certos momentos da História há explosões de consciência que até hoje nenhum pensador explicou, a meu contento, pelo menos. Há depoentes que nem se lembram de ter visto alemães na França. Quase acredito. Se viram, não notaram.

O que é um país ocupado? Entendam a minha definição no mais lato senso possível. Não precisa ser ocupação estrangeira. É um país onde, em primeiro lugar, haja “judeus”. Um país em que homens e não leis governem. Onde os ideais (os melhores) da civilização grega, cristã, renascentista e iluminista cessem ativamente de existir como substância e forma de vida, substituídos pela esterilidade, o aborto cultural. Onde não haja liberdade. Quem silencia, compactua. Le Chagrin et la Pitié nos põe todos na França daquele tempo. Devemos julgar-nos quando estivermos julgando. Estou sendo professoral e chato. Amém.

Sou neto de um excelente senhor alemão, por parte de pai. Um homem decente em todos os sentidos. Mas ao ver um certo capitão Hausend, que lutou no exército nazista na França, tive uma fantasia homicida. Que eu gostaria pessoalmente de jogar uma bomba de hidrogênio na Alemanha, que os Aliados deveriam ter imposto uma paz cartaginesa ao III Reich. Retiro o que disse. Não faria isso. Mas pensei.

Hausend é gordote, um sólido porco. Um bom burguês. Está casando uma filha em 1969, quando aparece no documentário. A mulher é a típica hausfrau alemã, abjetamente submissa e preocupada com a opinião dos vizinhos. Vários filhos de Hausend são do novo exército alemão, da democrática República Federal Alemã, vocês sabem? Hausend diz que os franceses logo se convenceram que os alemães não eram monstros e todos se deram bem. Ele não tem queixas, ou remorsos. Ophuls estranha que Hausend, em trajes civis, ainda use condecorações que ganhou de Hitler e pergunta se os vizinhos não o criticam. Hausend diz que já ouviu críticas, mas explica, delicadamente que é porque os críticos não ganharam condecorações como ele.

E tem uma crítica a fazer aos franceses: chama os maquis de bandidos, porque não se identificavam (sic). Acha que deveriam usar alguma espécie de uniforme para serem tratados como beligerantes. Ã paisana, não passavam de bandidos. Ophuls lhe pergunta se viu atrocidades cometidas pela Gestapo. Claro que não. Mas, afinal, conclui, a Gestapo estava lá para “nos” proteger.
Hannah Arendt tem razão. O Mal é banal. Mas filosoficamente apenas. Não sejamos tão inteligentes quanto Miss Arendt. JDLódjo. põdeTer um sentimento extremamente saudável.

UM IDIOTA RURAL

Louis Grave é um pequeno fazendeiro e vive no que Marx chamou a “idiotia rural”, falando da gente do campo. Foi maquis. Esteve em Buchenwald. Conta que morrendo de fome, um alemão lhe passou um dia uma maçã. (Nota: existia um alemão humano no III Reich, fora da cadeia) Não denunciou o vizinho que o denunciou à Gestapo, levando-o portanto a Buchenwald (já visitei: as acomodações não eram de primeira classe). Sabem por que? Porque delatando esse vizinho ele também seria delator, coisa para que não tem estômago. Louis Grave é o sal da terra. Idiota rural é a vovozinha.

DUAS PERSONALIDADES

O que faltou a Mendès-France para ser um grande líder? Ele é de Esquerda, corajoso, simpático em si e com simpatia pela humanidade, mas fracassou como primeiro-ministro, fraquejou diante do colonialismo. Aqui, ele está na melhor. Tenente da Aeronáutica querendo brigar e judeu, uma combinação perigosa em Vichy, 1940. Cana nele. Foge. Sobe num muro.
Tem de pular. Embaixo um casal, impedindo o salto. Ele quer. Ela está em dúvida. Discutem, vocês sabem como é, “mas meu amorzinho”, “Meu bem, não é isso, é que”, “mas, meu amorzinho, você não me ama?” “Amo sim, meu amor, mais que tudo, mas é que” etc. A conversa não é muito brilhante como literatura, mas quem já a teve, sente o drama. Mendès não podia pular em cima do casal e queria que a moça resolvesse logo para ele poder fugir. Por fim o casal se foi, separado. Mendes diz que gostaria de reencontrá-lo para congratular-se com a moça pela “modéstia” e solidarizar-se com o rapaz, pela frustração. É a parte principal do depoimento dele. Já sei o que faltou a Mendès para ser um grande líder. Ele é humano demais. Christian de la Mazière é fascinante. Um aristocrata fascista. Nada de caricatura. Tem uma lógica irrespondível para as negras, digo, para os aristocratas dele. Explica que nos anos 30, os políticos franceses eram “corruptos” (sempre foram, inclusive os de Direita, o que a Direita sempre “esquece”, quando quer impor uma ditadura). Que o mundo estava polarizado entre fascismo e comunismo. Ele, aristocrata, cristão, amigo da hierarquia, da ordem, das tradições da França (quais? Dos Bourbons ou de Saint-Just?) só poderia optar pelo fascismo naquela luta mortal. E, depois, aquelas pessoas de “ascendência dúbia” (vulgo judeus) no poder, como permitir? Cômico. Nós que fomos educados por Trotsky, Rosa Luxemburg etc., sempre achamos a Frente Popular de Leon Blum (o governo a que de la Mazière se refere) uma mistificação do stalinismo e de um frágil reformismo. Para a direita, porém, era o próprio COMUNISMO, qua, qua. De la Mazière no palácio magnífico que habita, explica a OPÇÃO que fez. Agora, não pensem que tenha sido um parasita, um direitista de mero berço de ouro. Foi oficial das Waffen SS na URSS, onde não se brincava de guerra, não. Dos 7 mil franceses que se uniram a ele, só 300 sobreviveram, entre eles o educadíssimo Christian, que depõe para nós, sem remorsos. Como classificá-lo? Não deixa de ser um herói, à maneira dele.

O MAIS COMOVENTE

Denis Rake tem 70 anos e picos (sinto uma quase irresistível tentação ao trocadilho. Resisti). Acaricia o gato. Sotaque de média classe média, ou alta classe média? É por aí. Há aquele je ne sais quoi nos gestos e jeito que provoca o famoso grito no Maracanã. Mas Rake (ironiazinha: quer dizer devasso, em inglês) foi da S.O.E., durante a II Guerra, na França. O que é S.O.E.? foi uma das maiores organizações de terrorismo e sabotagem que se conhece, no nível da Seção 13 da KGB (a principal polícia secreta da URSS). Fez o diabo na Europa Nazista, criada sob medida por Churchill, preparando a invasão da Normândia, depois que se convenceu daquilo que eu informo invariavelmente a vocês: que o Serviço Secreto Inglês (MI-6 então, agora SIS) é a popular fórmula do cobre, idem CIA, etc. E Rake foi um dos mestres do terror e da sabotagem.

Notem bem que se ele fosse capturado cairia nas mãos da Gestapo, que não era propriamente uma escola para moças. Ophuls nota que Rake já andava pelos 40 naqueles tempos, logo para que ser voluntário de serviço tão perigoso? Rake, ligeiramente encabulado, explica que, sendo homossexual, sempre fora muito criticado por certos amigos e queria provar-lhes que era capaz de fazer o que os machões mais-mais faziam. Pense nisso quando baixar o ódio tribal a algum rebolante, meu ilustre passageiro e leitor. Freud tinha razão: o sentimento de culpa é uma das grandes, talvez a maior fonte de criação do homem…

CHOQUES

Hitler, meus amigos, parece que tinha um certo charme, quando não estava discursando. Orwell disse que o mataria imediatamente se pudesse, mas que reconhecia nele uma frustração de grande força empática. Nunca notei. Mas, ao natural, apesar do bigode e cabelo, ele me sugeriu uma vivacidade envolvente, é o que nos (me) mostra Ophuls. Sabemos que era um imbecil, em termos intelectuais. Moralmente, é impossível julgá-lo, porque supérfluo, não temos simplesmente a capacidade de caracterizá-lo. Mas aí está, em alguns momentos, um senhor que parece um bom papo. Essa impressão minha é o requinte de horror de Le Chagrin et la Pitié. Sempre amei Danielle Darrieux. Não mais. Rompemos definitivamente. Foi quando a vi subindo num trem para a Alemanha onde ia filmar com os nazistas. Agüentei todos os chifres que ela me pôs nos filmes, mas isso é demais. E ainda rindo.

Sempre detestei Maurice Chevalier. Sempre tive razão. É o francês de anedota e cantou na Alemanha também. Diz que não. Que foi para os prisioneiros franceses. Os franceses o perdoaram. Talvez se reconheçam nele. Eu não tenho de que o perdoar, porque nunca o tolerei.

As massas nas ruas, aplaudindo Pétain. As mesmas massas aplaudindo De Gaulle. Massas. É preciso acabar com as massas. Aristocratas e revolucionários concordam nisso, com objetivos
diferentes, mas é impossível — e politicamente, acreditem, amo a humanidade, mas muito poucos seres humanos, talvez porque me sinta relfetido neles — é impossível, eu dizia, não me sentir como Coriolano quando vejo essas massas. Mas aí, nesse desespero, me lembro da química misteriosa de 1789 e de fevereiro de 1917, e consigo pensar no Brasil, no meu povo, na minha “gente” (não é esta a palavra) e murmurar um modesto, até quando, ó Senhor?

SURPRESAS

Anthony Eden. Que elegância, quedasse, que sotaque. Me “esqueço” temporariamente que le foi contra auxiliar os republicanos espanhóis. É com a maior gentileza, sem um traço de condescendência, que fala dos repulsivos Pétain, Laval e outros colaboracionistas. O repórter quer saber se houve outro governo de país ocupado à força (houve os que aderiram por gosto) pelos nazistas que colaborou como o francês. Eden, constrangido, diz que não, o repórter pergunta se não havia um acordo entre a França e a Inglaterra que nenhum assinaria armistício sem consentimento do outro Havia (cessar-fogo é outra coisa, na impossibilidade de resistir.

Armistício é conivência. P.F). A França rompeu? Rompeu. Eden faz tudo para adoçar a pílula que tem gosto de pimenta-bólide. Diz que sem se “ser ocupado” é difícil julgar os que passaram por isso. Os ingleses ganharam as duas últimas guerras, perdendo, ao mesmo tempo, o império, e tornando-se nação de segunda. Um paradoxo sem paralelo na História. Mas a classe dirigente imperialista, teoricamente nojenta etc, manteve a moral, porque lutou bem, não se avacalhou em 1914 ou 1939 (esteve a pique de, em 1939, Munique e o escambal, mas Churchill e Eden salvaram-lhe a cara). Daí, acredito, a dignidade de gente como Eden (que ainda deu aquele fora horrível em Suez). Dentro dos critérios em que foi educado, acredito que não tenha remorsos. Tem, pelo que vale, o meu respeito — da oposição. De Restier é outro aristocrata. Rosto chupado. É do ópio. Tem cara de quem já fez tudo em sexo.

Parece um pouco o Cocteau. Tem todas as condecorações da Resistência (já morreu). Explica que para ser da Resistência era preciso ser um “desajustado” como ele. Mas não são as pessoas ajustadas as mais chatas e as piores? Quando vejo esses jovens bonitos americanos que voam em sofisticadíssimos jatos sobre a Indochina, matando a gente mais miserável da terra, e explicando que “apenas cumprem o dever” (Eichmann se tornou o filósofo preferido do Ocidente, em guerras), tenho certeza que são “ajustados”. Prefiro Restier. Tenho certeza que passaria uma noite de agradável e cético papo com ele ouvindo-o mais que falando, em que ele jamais mencionaria os atos de coragem insensata que praticou na Resistência — pode haver assunto mais chato, ele perguntaria a sério — e cercados do melhor que a química pode oferecer. O único problema filosófico do Século XX não é o suicídio: é o tédio.”

O QUE FICOU DE FORA

Depois de tanto elogio, eu poderia gentilmente chamar Ophuls de “idiota visual”, um desses rapazes que pensa que ver as coisas é entendê-las. Gentilmente porque é preferível isso a acusar safadeza nas omissões dele. Mas numa entrevista que deu ao Times, em que lhe cobraram o que vou cobrar aqui, ele estrepou-se. A primeira, a participação da Igreja Católica no colaboracionismo. Ophuls diz que não conseguiu entrevistar ninguém de peso. Pra que peso? Qualquer padre de uma ordem intelectualizada (jesuíta, beneditino, ou dominicano) conhece as posições ideológicas da Igreja. O Vaticano tem um dos maiores quadros intelectuais do mundo, com especialistas no que quiserem. É a omissão mais importante.

E o PC francês? Ophuls informa que o depoimento de Jacques Duelos, líder, sobre o Pacto Stalin-Hitler (agosto de 1939) é “ininteligível”. Era só Ophuls me dar (o depoimento) que eu o tornaria inteligível. Fato: o PC, por causa da “não-agressão” entre Stalin e Hitler, foi, entre 1939 e junho de 1941, tão derrotista como os pró-nazistas franceses, porque tinha instruções expressas de Stalin de “não provocar Hitler contra o bolchevismo” (a bem da verdade, acrescento que Stalin ficou desagradavelmente surpreso ante a derrota rápida das Forças Armadas francesas). Quando Hitler invadiu a URSS, em 21-22 de junho de 1941, o PC, que antes acusava a guerra de transformar o proletariado em bucha para canhão dos imperialistas, virou bicho. Converteu-se na força suprema da Resistência. Tanto assim que o grande medo de De Gaulle era que os comunistas tomassem o poder, em 1944. De Gaulle, ingênuo, na época (por pouco tempo), ignorava que Stalin cedera a França como esfera de influência anglo-americana, em troca do Leste europeu, nos papos vis-à-vis Churchill e Roosevelt. Stalin conteve os comunistas franceses, a partir da invasão dos Aliados na Normândia. Ordenou-lhes que se submetessem a De Gaulle. O PC obedeceu, apesar de uma certa revolta nas bases. Até hoje está nessa. Não quer o poder. Assustou-se mais que as madames burguesas quando os meninos começaram a tocar fogo no circo em maio-junho de 1968, fazendo um acordo por baixo do pano com Pompidou, que impediu a tentativa de revolução da juventude naqueles dias (O PC decretou greve geral, mas por melhoria de vida. O que pintava ser revolução passou a ser reivindicação).

E a Igreja? Onde estavam os bispos e Cia. quando Laval começou a cumprir alegremente a perseguição aos judeus? Simples, na linha de Pio XII, que considerava o comunismo O INIMIGO, preferindo Hitler a Stalin, logo, nada de “provocar” o führer, que, apesar de meio anti Cristo, afinal servia também de anti-anti-Cristo, no complicado raciocínio do Vaticano. Sim, porque se a Igreja da França, poderosíssima, berrasse, a Gestapo parava, e Lavai não ousaria sequer aquiescer na imundície do genocídio. E a coisa vai muito além ou muito atrás, se preferirem. A Igreja da França ainda está combatendo a Revolução Francesa de 1789. A França é um país esquizofrênico, o que o mais ingênuo turista é capaz de notar, de saída. De um lado, aquelas grandezas culturais: doutro a mesquinharia, a pequenez, o reacionarismo que vai da aristocracia à quitanda. Os três pilares do racionarismo são Igreja, Exército e Aristocracia, interligados. A massa deles é a pequena burguesia e o campesinato. Mas só a Igreja é consistente. Não consegue se livrar do fantasma de Robespierre (cuja substância é Saint-Just). Lembre-se que depois que a Espanha se arrebentou contra a Inglaterra (Elizabeth I, com certa ajuda de Errol Flynn), a França se tornou a única verdadeira grande potência católica na Europa (a Áustria em medíocre segundo lugar). 1789 foi o fim desse reinado. Uma das duas grandes revoluções estruturais da humanidade. A outra foi a de fevereiro de 1917, na Rússia. Não é a bolchevique, a de outubro, comunistas em 1789 e fevereiro de 1917 foram as massas mesmo que fizeram a Revolução. Em outubro de 1917, na Rússia, houve uma revolução mais profunda, mas dirigida por brilhante grupo de intelectuais revolucionários — inteiramente dirigida por Lenin e Trotsky. Falando nisso, há marxistas que concordam comigo: Rosa Luxemburg é uma. Isso até hoje dói na Igreja da França. Ela nunca abateu o reacionarismo. Manteve espiritualmente a cabeça dos Bourbons. As outras forças reacionárias são menos coerentes. Afinal, o general De Gaulle, apesar de certas características pra trás, era, em muitos sentidos, progressista e iluminado. E foi um coronel, aristocrático e anti-semita, Picqart, que, sofrendo o diabo, acabou obrigando, com o depoimento dele, a libertarem e a “reabilitarem” Dreyfus. Entre a pequena burguesia e campesinato também sempre houve bons republicanos. E os aristocratas civis, bem, o próprio Ophuls nos mostra De Restier fazendo misérias e há todos aqueles cavalheiros com nomes entre hífens, lutando ao lado de De Gaulle e no poder até hoje, nem sempre na Direita. Não na Igreja. Não quero dizer que só tenha havido católicos reacionários na França, isso seria inexato e ridículo, mas a igreja, como instituição, esteve em todas contra os direitos humanos, se “ateus”. A favor da “restauração” de 1815, contra 1848, pró-Napoleão golpista de araque, em 1851. (sobrinho do verdadeiro, e que virou personagem de Marx, no 18 Brumário etc), contra a Comuna (que nada tinha de comunista, falando nisso, Lenin é que se apropriou do nome) de 1871, a favor de tudo quanto era movimento monarquista e anti-semita (na luta em que o caso Dreyfus é o mais famoso exemplo e pretexto) até 1914, e agitando furiosamente para derrubar a Frente Popular, de Leon Blum, em 1934, que a Igreja considerava “bolchevique”. Não se esqueçam que Maritain era tido como pensador católico “avançado” na França, até pouco tempo.
Por aí se tira a média. Como em toda regra etc, alguém certamente me lembrará os “padres operários” (que João XXIII mandou parar, eu. hem?)- Hoje, as coisas melhoraram. Certo? Agora, na década de 1930, em que o “bolchevismo” (todas iniciativas de Esquerda ou meramente progressistas) e fascismo polarizavam as correntes dominantes das sociedades capitalistas, na crise da Depressão, da guerra civil da Espanha e das convulsões na Alemanha, o clero francês obviamente preferiu Hitler e colaborou com Pétain e Lavai.

Nada disso é sequer tocado no filme de Ophuls. Talvez seja assunto complicado demais para os modestos recursos formais do cinema. Mas nem uma palavrinha? Não, é imperdoável. Mas o filme é magnifício. Uma máquina do tempo na História passada e presente.