LADRÕES E LADRAVAZES
“Quanta diferença!” – dizia a jovem garota-propaganda num comercial de tevê no início dos anos 1970 referindo-se ao novo xampu “Colorama” (imagens no You Tube).
A mesma diferença pode ser estabelecida entre ladrões e ladravazes, sendo que estes últimos só começaram a ser compreendidos e entendidos pelos brasileiros quando a Operação Lava Jato ganhou as manchetes da mídia brasileira e grandes assaltantes dos cofres públicos foram mandados para os presídios.
Antes da Lava Jato era voz comum entre os brasileiros um axioma triste que nos reduzia a uma republiqueta bananeira, pois só os três pês (“preto, pobre e prostituta”) iam para trás das grades, dividindo o nosso país entre os que se valiam do “você sabe com que está falando” e aqueles que baixavam os olhos e resmungavam “sim senhor!”. A Lava Jato, ao mesmo tempo em que revelou a maior rapinagem do planeta e mostrou o rosto dos ladravazes, simplificou regras legais antes jamais imaginadas “neste país”.
Além de despertar um adormecido e conformado lado decente nacional, descrente da lei e de seus poderes constitucionais, balizou os brasileiros em apenas dois grupos – a) os cumpridores da lei; b) os foras da lei. Sim, ladrões e ladravazes estão na categoria “b”, mas até entre estes foras da lei há uma divisão hierárquica, facilmente compreensível, depois da Lava Jato. Ladrões – os que furtam aproveitando o descuido das pessoas e os que tomam à força o patrimônio alheio, causando, em ambos os casos, danos colaterais limitados, depois do dano maior aplicado na vítima.
Ladravazes – os que saquearam o Brasil das formas mais sofisticadas possíveis, invadindo o patrimônio dos brasileiros, cujos danos colaterais dessa gigantesca subtração ardilosa resultaram num passivo ainda não dimensionado, mas visível nos trágicos corredores de nossos hospitais, de nossas obras públicas sucateadas (mas sempre superfaturadas), de nossa segurança pública derrotada pela bandidagem e de nosso sistema educacional ideologizado pelo que há de pior em matéria de ensino.
Mas tem mais: os ladravazes também contaminaram os referenciais éticos nacionais, dando um upgrade na esperteza e na malandragem, sem qualquer preocupação com a ostentação que podia ser um pedalinho personalizado, um jatinho com documentação fraudulenta, um apartamento com malas e sacolas de dinheiro mal havido ou num conluio noturno de autoridades, empresários, banqueiros, empreiteiros, lobistas, políticos, magarefes fashions e delatores.
Os ladravazes nacionais com cadeiras cativas no topo da pirâmide social não financiavam com o dinheiro público nossas obras de infraestrutura, mas repartiam entre si parte do esforço contributivo dos brasileiros em empreendimentos no exterior como metrô em Caracas, porto em Cuba, rodovias na Bolívia, aeroportos na África. Para os ladrões, Sérgio Moro foi apenas mais um juiz criminal. Para os ladravazes, Sérgio Moro, mesmo não sendo mais um magistrado, é um fantasma que ainda lhes tira o sono.
Para alguns, a insônia é nos presídios. Para outros, ainda em liberdade, o ex-juiz é um pesadelo constante.
É saudável desconfiar de quem quer o fim da Lava Jato. Sérgio Moro, “quanta diferença” o senhor proporcionou ao Brasil!
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