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“Quem parte descansa. Sofre quem fica”.
Janer Cristaldo,
numa crônica em agosto de 2003

JANER E SUA BAIXINHA

O santanense Janer Cristaldo, jornalista, escritor, tradutor, advogado, filósofo, era, rigorosamente, um cidadão do mundo. E como tal, jamais deixou de escrever sobre o seu pago, pois seguia a verdade dita por Tolstoi – “canta a tua aldeia e serás universal”.
 
Ele tinha orgulho de ter nascido em Santana do Livramento e se criado em Dom  Pedrito, no meio do campo onde até mesmo a aldeia mais próxima era longe. Mas como Janer tinha prazer em falar de seus pais, da sua professora, dos fantasmas que habitavam aquela paisagem que se misturava com o cair da tarde e sumia na noite só iluminada na fase da lua cheia!

Suas crônicas tendo como tema o amor pela sua baixinha, são obras primas sobre o maior sentimento que seres humanos cultivam entre si. Seus amigos e leitores invejavam as declarações de Janer para ela que se foi cedo e deixou um black hole que foi consumindo, aos poucos, o nosso querido companheiro de tantas jornadas. Ei-lo descrevendo os últimos momentos da adorada baixinha.
 
“Sedada, já no torpor da morte, chamaste tuas últimas energias, te ergueste no leito. Levantando o dedinho, didática qual professora falando a seus pupilos, sussurraste com o que te restava de voz: "E se fizéssemos assim: eu assino um documento: eu, TKM, em pleno uso de minhas faculdades mentais, declaro que quero ter meus restos cremados no cemitério da Vila Alpina". Reuni minhas forças e consegui balbuciar: não te preocupa, Baixinha adorada, isto há muito está combinado, verme algum sentirá o gosto de tuas carnes. Tuas cinzas, vou jogá-las de alguma ponte em Paris, uma daquelas pontes que tanto amaste, para que saias navegando mares afora.”
 
Janer não cumpriu o prometido e justificou a sua falta. “Passada a mensagem, te reclinaste em paz. Mas descumpri o trato. Não as joguei em Paris. Ficarias muito longe de mim, navegarias talvez por mares gelados e hostis, encalharias em geleiras e te perderias em fiordes, longe de meu calor. Com carinho, te plantei entre os rododendros e todas as manhãs passo entre ti e murmuro: adorada. É bom te cumprimentar. Mas como dói.”.
 
Nosso amigo faleceu nesta segunda-feira e foi cremado no mesmo lugar da sua baixinha: no cemitério da Vila Alpina, em São Paulo. Janer era ateu e para ele a morte era a partida para o nada. “O grande nada, onde nada existe e ninguém sente falta de ninguém”.  Nada disso, meu amigo. Sua baixinha dizia-lhe sempre; “Onde estiver, vou sentir a tua falta”. E, agora, estão de mãos dadas e nós sentindo a tua falta.
 

LEMBRANÇAS (1)

Nasci no Upamaruty, distrito rural de Livramento, na fronteira seca entre Brasil e Uruguai. Coincidia que o Uruguai começava justo no horizonte, onde ficava a Linha Divisória. Nesta linha, de quilômetro em quilômetro há um marco de concreto. De seis em seis, há um marco maior. 

LEMBRANÇAS (2)

Em frente a nosso rancho, ficava o Marco Grande dos Moreiras, sobrenome paterno. Meu pai me erguia até o topo do marco, me fazia virar para o nascente e dizia: “Fala para os homens do Uruguai, meu filho”. Depois, me virava para o poente: “Fala agora com os homens do Brasil”. Nasci entre dois países, sempre olhando para um e outro. Daí a querer ir mais adiante foi só um passo.

LEMBRANÇAS (3)

Fui revisitar minha infância. Mas já era um intruso naquele mundo de tempo infinitamente lento, preguiçoso. À medida que me aproximava do Cerro da Tala, onde estava a Toca da Onça, um nó foi me estrangulando a garganta. Lá adiante, no Uruguai, frente ao Marco dos Moreiras, o rancho de Don Floro Rocha. No lado do Brasil, minha tapera e a casa do Tio Ângelo.

LEMBRANÇAS (4)

Infeliz do ser humano que morre igual como nasceu. Não evoluiu. A vida, as viagens, as cidades me transformaram. Virei cidadão do mundo e não consigo mais viver no deserto. Seria um tour de force dizer hoje que sou gaúcho. Mas à minha infância, continuo fiel.